O MEC está tentando transformar o Enamed em mais do que uma prova: a ideia é usá-lo como instrumento de regulação para forçar cursos de Medicina a corrigirem falhas de formação antes que elas cheguem ao SUS, às UPAs e aos hospitais, onde o impacto vira risco direto ao paciente.
🩺 Enamed como “freio de arrumação” na formação médica
A fala do ministro parte de um ponto simples: formação médica não é um produto qualquer do ensino superior. Quando um curso falha, o erro não fica só no boletim — ele aparece em prescrição, diagnóstico, conduta e segurança do cuidado. Ao defender o Enamed como “principal ferramenta” de avaliação e dizer que ele busca identificar falhas estruturais antes do profissional entrar no mercado, o MEC assume publicamente um papel mais ativo na regulação. No Brasil, isso toca um problema estrutural: expandimos oferta e vagas por anos, mas a capacidade de garantir padrão mínimo (infraestrutura, preceptoria, prática supervisionada, corpo docente estável) não cresceu no mesmo ritmo em todas as instituições.
💰 O recado mais duro: mensalidade alta não pode conviver com nota baixa
Um trecho é emblemático porque mistura qualidade e moral pública: o ministro afirma ser “inadmissível” um curso que cobra mensalidades muito altas ter nota 1 ou 2, e diz que não se trata de “caça às bruxas”, mas de exigir investimento real em professores, laboratórios e infraestrutura. Isso explicita uma tensão típica do Brasil: em áreas de alta demanda e alto ticket, parte do mercado consegue crescer mesmo quando entrega pouco — porque o “valor” percebido é o diploma e o status, não necessariamente a qualidade do processo formativo. Quando o Estado entra com um exame e atrela consequência institucional, ele tenta inverter esse incentivo.
🚫 Sanções e “prazo para readequar”: a aposta na correção forçada
A notícia aponta punições imediatas para cursos que não atingirem critérios mínimos, incluindo suspensão de ampliação de vagas e redução de matrículas, com um prazo para readequação até o próximo Enamed. Na prática, isso cria um mecanismo de pressão que o Brasil costuma aplicar tardiamente: só quando o dano reputacional aparece é que a instituição se move. O risco é estrutural: se a sanção virar apenas um rito burocrático (cumprir exigência mínima para “passar de fase”), a melhoria pode ser superficial. O ganho real depende de fiscalização consistente e de critérios que olhem para o que mais importa na Medicina: prática clínica supervisionada, campos de estágio, qualidade de internato e integração ensino-serviço.
💻 Fim do EAD na saúde: coerência regulatória ou reação tardia
Ao citar o marco regulatório do EAD e afirmar que áreas como enfermagem não deveriam ser feitas a distância, o ministro conecta a discussão do Enamed a uma tese maior: formação em saúde exige presencialidade e contato com cuidado real. No Brasil, esse debate é também estrutural: a expansão do EAD cresceu mais rápido do que a capacidade de garantir prática, supervisão e avaliação de competência. Quando o governo restringe o EAD em saúde, tenta corrigir um desequilíbrio — mas isso precisa vir acompanhado de alternativas viáveis (campos de prática, convênios, preceptores, estrutura), ou vira apenas veto sem reconstrução.
🧾 “OAB da Medicina”: quando avaliação vira licença para trabalhar
A notícia traz um ponto decisivo: ao comentar a proposta de um exame nos moldes da OAB, o ministro sugere que o próprio Enamed possa cumprir esse papel e defende que a nota conste no diploma e seja usada para avaliar se o profissional está apto. Aqui mora a linha mais sensível do debate brasileiro: uma coisa é avaliar curso e sistema; outra é condicionar o exercício profissional. Se o país caminhar para um modelo de “exame de ordem”, será preciso decidir com clareza: quem aplica, qual competência se mede (teórica e prática), qual política de transição, e como evitar que a conta da má qualidade institucional recaia exclusivamente sobre o estudante — especialmente em um sistema onde o acesso e a permanência já são desiguais.
🇧🇷 O que isso revela sobre o Brasil: qualidade, distribuição e SUS no meio do caminho
O argumento “esses médicos vão para os hospitais” aponta para uma realidade inescapável: a formação médica é peça estrutural do SUS. Mas o problema brasileiro não é só “falta de régua”; é também como o sistema produz e absorve médicos. Temos desigualdade regional de oferta, diferença brutal de condições de formação entre instituições, e gargalos de residência e supervisão prática — o que faz com que “ter mais médicos” não seja sinônimo de “ter melhor cuidado”. Por isso, o Enamed pode ser uma alavanca importante, mas não resolve sozinho. Sem atacar as causas (campos de prática insuficientes, precarização de infraestrutura, lógica de expansão sem lastro, pouca integração ensino-serviço), o país corre o risco de viver um ciclo repetido: prova forte, polêmica forte, judicialização forte — e pouca transformação na sala de aula e no internato.
✅ Conclusão
A defesa do Enamed, do jeito que aparece na notícia, é um recado de reposicionamento do Estado: formação médica volta a ser tratada como política pública de risco alto, não como mercado autorregulado. O teste real de 2026 não será apenas aplicar a prova, mas sustentar três frentes ao mesmo tempo: (1) sanções com critério e acompanhamento, (2) melhoria concreta das condições de ensino (e não só adequação formal) e (3) um debate maduro sobre “exame de ordem” que proteja o paciente sem criar soluções simplistas para problemas estruturais do sistema educacional e de saúde do Brasil.
Leia a notícia original na íntegra em: https://www.cnnbrasil.com.br/educacao/a-cnn-camilo-santana-defende-enamedesses-medicos-que-vao-para-hospitais/