SP aposta em turmas por nível: avanço pedagógico ou “trilha” que pode estigmatizar?

São Paulo está testando um modelo que separa alunos do mesmo ano em turmas diferentes conforme o nível de aprendizagem, tentando atacar de frente a defasagem série-aprendizagem — um dos problemas mais persistentes (e invisíveis) da escola pública brasileira.

🧭 O que está sendo implementado (e por quê)

O Projeto Voar começou como piloto em 147 escolas estaduais e organiza estudantes em duas categorias: uma turma “nível padrão” e outra “nível adaptado” (para defasagens médias ou altas). A lógica é pragmática: com salas muito heterogêneas, o professor tem pouco tempo para atender necessidades extremamente distintas, e parte dos alunos simplesmente “descola” do ritmo da aula. A seleção inicial usa o desempenho em Língua Portuguesa e Matemática no Saresp 2025, e a proposta prevê acompanhamento ao longo do ano, com possibilidade de mudança de turma conforme o aluno se aproxima do nível esperado.

📚 “Mesmo currículo, ritmos diferentes”: onde isso pode ajudar

O desenho anunciado diz que o conteúdo é o mesmo, mas trabalhado em velocidades diferentes — ou seja, a intenção não é “ensinar menos”, e sim criar uma rota de recomposição para quem ficou para trás. No Brasil, isso conversa com um gargalo estrutural: avançamos série por série, mas nem sempre garantimos que o aluno leve junto os pré-requisitos. O resultado aparece em bola de neve, especialmente em Matemática. O próprio governo cita uma estimativa de que 70% dos alunos do 9º ano estejam abaixo do esperado em Matemática (e ~45% no 6º ano). Se o projeto for bem executado, o ganho pode ser direto: reduzir frustração, aumentar tempo de aprendizagem efetiva e dar ao professor condições reais de planejar intervenções com foco — algo difícil quando há “três escolas” dentro da mesma sala.

🧪 O ponto-chave é a qualidade da implementação (não só a ideia)

O piloto terá avaliações próprias ao longo do ano (com uma linha de base e novas rodadas entre junho–agosto e em novembro) e será acompanhado por pesquisadores de Harvard, o que pode ajudar a separar percepção de evidência. Mas, no chão da escola brasileira, a implementação costuma ser o calcanhar de Aquiles: separar turmas por nível exige material adequado, planejamento fino, formação e, principalmente, gestão de tempo pedagógico. Se virar apenas “a mesma aula, mais lenta”, sem metodologia de recomposição (diagnóstico contínuo, recuperação de habilidades fundacionais, prática guiada), o risco é só esticar o problema.

🏷️ Risco de estigma: quando “adaptado” vira “turma dos bagunceiros”

A gestão reconhece explicitamente o risco de estigmatização e relata que, em escolas que já tinham estratificação, alunos às vezes rotulavam a sala como “classe dos bagunceiros”. Esse é um alerta sério para o Brasil porque nossa cultura escolar já tende a etiquetar o aluno pela performance — e o rótulo, uma vez instalado, vira profecia autorrealizável: baixa expectativa → menos desafio → menos avanço → mais evasão simbólica. Se a rede quiser que o projeto funcione sem produzir dano colateral, precisa blindar alguns pontos: linguagem (não expor a turma como “dos fracos”), rotinas de mobilidade real entre níveis, distribuição equilibrada de professores mais experientes e protocolos anti-bullying — porque, do contrário, a política vira “separar para gerir” em vez de “separar para recompor”.

🌍 Inspiração internacional: “Teaching at the Right Level” e o que muda no Brasil

O governo diz que o modelo se inspira no Teaching at the Right Level (TaRL), aplicado na Índia, que agrupa estudantes por nível de aprendizagem e é tratado como caso de sucesso no país. A comparação é útil, mas o Brasil tem diferenças estruturais que podem mudar o resultado: aqui, a rede convive com rotatividade docente, lacunas de formação continuada e desigualdade de infraestrutura entre territórios. Em contextos assim, o risco é a solução virar triagem permanente, não intervenção temporária. O “pulo do gato” é garantir que o agrupamento seja uma etapa de aceleração com saída, e não uma trilha fixa.

✅ Conclusão

Dividir turmas por nível pode ser uma resposta honesta ao que a escola brasileira vive: muita heterogeneidade, pouco tempo e defasagens que se acumulam até o fim do fundamental. O piloto de SP tem méritos por explicitar o problema, usar dados do Saresp e prever avaliação externa. O sucesso, porém, vai depender menos do desenho no papel e mais de três condições: intervenção pedagógica robusta (não só ritmo), mobilidade real (para evitar “castas” escolares) e proteção contra estigma. Se acertar isso, pode virar uma ferramenta de equidade; se errar, pode institucionalizar a desigualdade dentro da própria escola.

Leia a notícia original na íntegra em: https://www.metropoles.com/sao-paulo/como-sp-quer-equiparar-alunos-dividindo-turmas-por-nivel-de-aprendizagem

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